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Friday, October 26, 2007

Noites Longas na Cidade...

Chego a casa de madrugada...
Contrariamente ao normal, não quero dormir...
Apetece-me relembrar a intensidade da noite na sombra reconfortante de um café acabado de fazer.
Ligo a chaleira eléctrica. No silêncio da casa ouço apenas os sons estridentes da minha agitação interior. Os que me mostram imagens contínuas de momentos, pessoas e espaços, vividos ao longo da noite.

Vou para a sala e abro a janela larga virada ao rio. Respiro fundo... uma e outra vez. Fecho os olhos para sentir o momento sem outras distracções...
Lá fora, a Lua cheia ilumina a sala com uma luz fria mas hipnótica e bela... É linda. "És linda"... sussurro, com voz rouca, cansada e gasta pelas horas...
Observo a avenida larga. É tarde... ou cedo, depende. Vejo ainda alguns carros em movimento.
Ao longe... ao longe, o brilho das luzes da outra margem e da ponte que, numa dança ritmada em jeito de "rave silenciosa" da madrugada, me agitam as emoções.

A chaleira chama-me, com o seu apito seco e esfumaçado pelo vapor.
Caminho calmamente e dirijo-me à cozinha, como se a noite fosse eterna...
Sentia-me menos inquieta e excitada pelas novidades, pela mudança em curso, por tudo e todos por onde os meus caminhos me têm conduzido...

O café... Está quase pronto. A água ferve já dentro da cafeteira onde o pó escuro e de cheiro intenso antes repousava e agora se envolve, esfuziantemente, com a torrente escaldante de água.
O café... Como um simples café é capaz de raptar-me o Coração e manter-me prisioneira das viagens da Alma.

Abro o armário para tirar a minha chávena amarela-torrado... De uma forma tão real, passa por mim o filme em que te revejo. O momento em que costumava perguntar-te qual a côr da chávena que querias, entre as mais de 10 chávenas coloridas que guardo, carinhosamente, e que acumulam histórias de família.

Estás aqui
, comigo... Em mim, onde sempre estarás. Sinto a tua presença, de tão intensa que é a lembrança.
Guardo cada gesto, cada olhar dos teus olhos de eterno menino... o teu toque... o teu carinho... as palavras e até a tua voz... Guardo-te. Em mim...
Respiro-te... Misturas-te com o aroma intenso do café, sem o qual não vivo... De olhos fechados, sinto cada momento da viagem, onde o aroma que invade a casa é a fita do filme que o café realiza... vezes sem conta. Sem açúcar. Basta-me a tua doçura...

Volto à sala e sento-me na janela ampla de parapeito baixo e confortável.
O calor do café acarinha-me a face quando cuidadosamente o beijo na primeira prova... É quente, intenso, denso, e forte...
Acarinho a chávena amarela com as duas mãos entrelaçadas para a proteger... para te proteger.

Já não sei o que me embala na frieza da luz intensa da Lua...
"I Know You're Somewhere Out There"...

2 comments:

Jorge said...

Gostei muito do texto...
I don't know if he's out there and I really don't care. What matters the most is that you're there, alive and kickin' :)

Já fizeste download do novo album dos RadioHead ? Como não ??
http://www.inrainbows.com/

Koronel Kruell said...

Narrativa fluente com sentimento fluente. Consegue fazer sentir o aroma do café a tanta distância.

Visita obrigatória.

Gostei.

Stress and the City, no YouTube

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