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Tuesday, October 09, 2007

Será Possível Escrever o Silêncio?...

Empurrei a velha porta de madeira pesada e empoeirada pelo tempo.
Mesmo depois de rodar a chave enferrujada consegui entrar ao fim de três empurrões persistentes, sendo que o último quase me fez aterrar no corredor de tábua corrida, gasta pela corrosão do vazio...
O ambiente era escuro, muito frio e... deprimente.
As teias de aranha e o que cobria os móveis, candeeiros e muitos outros objectos de uma casa, outrora habitada, tornavam aquele espaço num verdadeiro cenário de filme de casas assombradas.

Passaram quase dois anos... Parece que foi ontem.
Recebi a notícia por telefone, e mesmo sabendo que já estava muito doente, não queria que fosse verdade...
Mantive a frieza suficiente para fazer a viagem até Viseu sem derramar uma lágrima.
Mesmo depois de a ver, rodeada de flores, de amigos, de muitas pessoas que eu nem conhecia, entre as quais, figuras notáveis da região que me vinham "dar os sentimentos", mantive-me firme. Ainda hoje não sei descrever se em choque, se em apatia, que não durou por muito tempo. No dia do Funeral, não suportei o peso, e como o céu carregado de nuvens escuras, desabei...

O "Dar os sentimentos" é algo bizarro... como se fosse possível partilhar a dor que se sente quando se perde alguém com quem nos habituámos a estar desde que nascemos. Alguém com quem discutimos, com quem brincámos, com quem nos rimos, e a quem nos dava especial prazer irritar sabendo que responderia à letra.
Com a minha Tia era assim...
Havia sempre assunto. Defendia a região com unhas e dentes, idolatrava o Fernando Ruas, era membro activo de diversas associações, entre as quais, a Liga Portuguesa Contra o Cancro. Trabalhava no Hospital local, onde era Enfermeira. A Menina Angela, como lhe chamavam...

Agora... não a ouço. Recordo muito ao longe a sua voz forte e de timbre elevado, com forte sotaque da Beira. Aquela voz que me acordava todas as manhãs e da qual me queixava por não poder dormir até mais tarde... Mas no fundo, divertia-me com ela, e com a sua forma genuína de estar.
Agora, ouço... Silêncio.
O vazio do espaço, o frio da casa fechada, e o pó que não vê raios de Sol há meses fazem-me sentir tonta e enjoada. Tive de sair por uns instantes para respirar fundo e ganhar novo fôlego para regressar. Pensei nela, mais uma vez, e... entrei.

Passei o fim-de-semana alargado a recolher, seleccionar e a guardar em caixas um pouco de tudo: roupas, louças, objectos pessoais, fotografias, cartas, bilhetes, blocos de notas, pulseiras, brincos e colares... uma infinidade de coisas que me fizeram viajar no tempo... As chávenas onde me servia o leite com café ao pequeno-almoço, a velha torradeira onde aquecia a brôa da Tia Ermelinda...
Sabia que esta não seria uma tarefa fácil... E por isso, fôra tantas vezes adiada...
Por entre lágrimas que naturalmente escorriam quando me recordava de certos momentos, fiz algumas pausas para respirar fundo e continuar a tarefa que me irá tomar vários dias.

O fim-de-semana foi pautado pelo Silêncio...
Um silêncio gelado, que me povoou de um vazio enorme que se reflectiu num aperto tremendo no coração.
Passei os olhos com mais atenção pelas fotos que encontrei guardadas numa grande e pesada caixa. Vi o filme da Vida dela... os estudos no Porto e em Coimbra, as idas a Lisboa, as Viagens com as amigas, os casamentos, os baptizados, os aniversários, os amigos, os colegas do Hospital... retalhos de uma Vida que se apagou cedo demais.

Queria poder dizer-lhe que gosto muito de si.
Queria poder pregar-lhe mais partidas por telefone e irritá-la com os meus discursos que reduziam Viseu a um "lugarejo no fim do mundo", e enalteciam a "supremacia" Lisboeta!
Era esta a nossa troca de afectos. Entendiamo-nos tão bem...

Eu sei que a Tia adorava essas provocações, e sabia que não passavam disso. Provocações. Por gostar tanto de si, para lhe dar alegria e vontade de rir...
Queria que soubesse que penso em si e que os Natais nunca mais foram os mesmos, desde que deixou de vir a Lisboa, por estar doente.

Silêncio... Pelas recentes recordações com que Viseu me brinda - além das suas, existem outras - cuja origem tem diferentes contornos mas que me remetem, também, para o Silêncio infinito...
Silêncio... A Casa vazia e fria está triste e silenciosa.
Silêncio... O meu interior pesado e saudoso, vagueia entre o passado e o presente. Não consigo falar. Escrevo. Escrevo-te...

Silêncio... No meu coração cansado, gelado e em estilhaços, pelo atroz vazio em que me deixaste. Tal como me senti na casa da minha Tia (agora minha), também tu, dois anos mais tarde, te traduziste num vazio frio, ensurdecedor, que agonia e esgota as minhas lágrimas de tanta desilusão, e me vencem por cansaço de tanto me interrogar: "porquê?"...

Nobody Knows.


1 comment:

Paulo Sampaio Neves said...

Obrigado por esta homenagem merecida à Tia que também foi minha.

Agradeço-te porque conseguiste dizer tudo - e naturalmente, muito mais - do que eu gostaria de dizer mas nunca encontro palavras.

É tão difícil encontrar palavras para dizer bem de alguém, para dizer o quanto gostamos de alguém...

Nunca tive o mesmo tipo de ligação que tinhas com a Tia, mas - e sabes que eu não choro facilmente - ainda me deixaste os olhos aguados quando li "os Natais nunca mais foram os mesmos".

É bem verdade.

Faz falta também o Tio Serafim e os seus cânticos. 8-)

Foi muito triste a forma como ele nos deixou, murchando aos poucos, e foi especialmente chocante ver como nessa altura ele se parecia tanto como o Avô, de tal forma que foi impossível não projectar nesse imagem num futuro que esperamos ainda muito longínquo, mas que, como sabemos, a "lei da vida" trará ao nosso presente mais tarde ou mais cedo.

Beijinhos. Obrigado. Bem hajas.

Stress and the City, no YouTube

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