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Thursday, November 01, 2007

O Renascer das Cinzas...

A campainha tocou.
Corri para o receptor onde no écran estava alguém ensanguentado, com uma estaca espetada no coração. Sorri... Era o P.
Abri a porta com dificuldade, já que trazia nas mãos os restos do pó branco que me deixou mais esquálida que o normal e mais branca que a cal, e regressei em passo corrido para a casa-de-banho onde, com a ajuda do espelho, terminava os últimos rituais...

Havia incenso a queimar em todas as divisões da casa, velas acessas, e música com muitos decibéis acima do normal, originando um ambiente meio... bizarro...
Ouvi a voz do P., que em jeito de grito tentava fazer-se ouvir no meio de todo aquele "ambiente difuso".
- "Posso entrar??!"
- "Claro!!" - soltei eu num "Lá bemol agudo", que resultou no meu estridente grito de "boas-vindas", seguido de uma gargalhada acutilante que percorreu a totalidade da escala musical em clave de Sol... numa noite de Lua semi-cheia.
- "Estou aqui, podes vir!", voltei a gritar a P., que já vinha ao meu encontro com alguma curiosidade em relação ao meu aspecto. Virei-me, e...:

- "Aaaaaaaaaaaaahhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh", gritámos em simultâneo, numa desafinação total! Qual dos dois o mais assustado!
De facto, metiamos medo ao susto, e depois da troca de elogios rasgados, entre gargalhadas ensanguentadas, lá saimos em direcção à Noite... a Noite de todas as Bruxas, de todos os monstros e Almas de outros mundos... Prometia!

O meu cabelo negro, comprido e escorrido, ficou preso na porta do carro.
- "De facto, estas "dimensões" de cabelo não se compadecem com os tempos modernos...", dizia para o P. que com ar de morto vivo esperava pacientemente ao volante para arrancar.
Olhámos um para o outro, mais uma vez, e desatámos a rir!
- "Estás uma autêntica Mrs. Adams!", dizia o P., num tom de graçola!
E eu respondi no meu melhor British accent:
- "Thank you very much, Count Dracula! You are also terrifyingly-sexy!", e pisquei-lhe o olho numa risada ruidosa... do outro mundo.
Arrancámos num transporte de século XXI, em direcção à casa da S. onde, numa viagem no Tempo, iriamos jantar em ambiente de muitos séculos atrás, na penumbra de candelabros, teias de aranha, e tudo o mais que possam imaginar dos filmes de terror!

Chegámos num instante. Subimos no estreito elevador até ao 5º e último andar daquele prédio lindíssimo antigo mas recuperado, em plena Lapa. Eu segurava cuidadosamente a Sobremesa Maléfica, que tinha preparado. Um gelado de nata muito congelado, dentro de uma caveira de cor branco-fluorescente, onde escorria molho de frutos silvestres que se assemelhava a sangue, conferindo um aspecto perfeitamente horrível ao pobre gelado!
O P. deitava o olho para dentro do enorme tupperware onde eu cuidadosamente guardára a dita sobremesa, com ar de quem queria já provar um bocadinho e também ver o efeito final.

Depois dos cumprimentos "terríveis" entre todos e de colocar a sobremesa novamente no congelador da S., fomos para a Sala.
O ambiente era mesmo magnífico, agora que estava tudo pronto e as velas acessas sem qualquer tipo de luz eléctrica. Ouvia-se música clássica. Tchaikovski - ou o "heavy Classical-composer" como carinhosamente lhe chamo - conferia ainda mais mística e suspense ao local que tanto trabalho nos tinha dado a preparar, durante a semana. Mas tinha valido a pena. O P. e o D. - o marido de S. - estavam rendidos às nossas artes decorativas inspiradas em ambientes góticos!
O restante grupo chegou de seguida... O F., a B, e ainda outros amigos do D., enchiam a casa e tornavam o ambiente cada vez mais estridente e... "pesadamente" alegre!

A confusão já reinava entre conversas variadas, aperitivos à base de cocktails de côr vermelha, e salgadinhos em forma de abóbora.
Distanciei-me um pouco
, e fui até à zona mais reservada da enorme sala: o terraço. Abri a porta e saí para tomar um pouco de ar fresco...

A vista sobre a cidade e o rio é magnífica... Lá estava a Lua semi-cheia, cálida e brilhante. Diria até, Majestosa, mesmo a "meia-haste"!...

Entrei novamente, pois a S. estava a reunir os monstrinhos para o Jantar Tenebroso!
A noite foi fantástica! "Monstros" cheios de sentido de humor animaram a conversa, e alguns engraçadinhos pregaram sustos valentes, sempre que alguém ia à casa-de-banho...
perto da uma da manhã, discutia-se para onde iriamos a seguir. Depois de muito "Conferenciar" o "Conselho Monstruoso" decidiu ficar em casa e apostar no mais tenebroso dos jogos: o Jogo da Verdade, em que o objectivo seria... conviver com os nossos "monstros interiores", sem medos... enfrentá-los!

Esta, foi sem dúvida, "the Ultimate Experience"...
No meio de máscaras, de monstros, de muitas teias de aranha, e cicatrizes, ali estávamos nós. Cada um, a mostrar a sua face mais oculta, a expôr os seus verdadeiros monstros a um grupo de amigos, mas também a alguns menos conhecidos.

Rimos, brincámos, emocionámo-nos, e... a noite acabou por ter um significado muito especial para todos, unindo-nos ainda mais.
Libertou muitas pressões e repressões... tornou-nos mais cúmplices e compreensivos acerca de outras realidades e formas de sentir, percebemos melhor a singularidade de cada um.

A noite de todas as Bruxas e de todos os Monstros, enfeitiçou o momento partilhado, e criou um espirito de equipa e amizade ainda maior. Conhecemo-nos melhor, mesmo quem julgávamos conhecer muito bem...
Na noite de todas as Bruxas e de todos os Monstros, soltámos as amarras, e fomos surpreendidos pela espontaneidade das revelações, pela coragem de algumas intervenções, e pela forma como, numa noite, alguns se libertaram de muitos monstros antigos, aniquilando-os para sempre...

Entrámos no dia 1 de Novembro, como se fosse o primeiro dia de uma nova Vida, e com uma experiência rica e bonita...
A Lua despediu-se do grupo que, no terraço, dava as boas-vindas ao Sol que, timidamente, se mostrava no horizonte...
Mais um dia. Mas não um dia qualquer. Dia 1. O primeiro de um novo ciclo. O primeiro dia de muitos que virão. Mais leves, mais ricos, mais soltos, menos sofridos...

Renascemos
, sob os primeiros raios do Sol...
Em silêncio, escutámos o alvoroço profundo do amanhecer, que através da brisa fresca da manhã, nos sussurou uma mensagem que me ficará para sempre. Aprendi que estes momentos podem acontecer mais vezes, e que a partilha e a entre-ajuda não têm dia nem hora marcada.
Tal como o Sol, todos podemos "amanhecer" a cada novo dia.
É a nós quem cabe essa escolha.
A de Renascer... todos os dias. Enfrentar medos e monstros, com a mesma coragem de quem rasga as trevas da noite e viaja até ao amanhecer. Basta ser-se Verdadeiro, saber escutar e...partilhar.


Dedico este texto e música, à minha muito querida amiga, Sol.

1 comment:

Koronel Kruell said...

Se existem feitiços que se prolongam para além da alma, o seu post será bom exemplo.

Excelente quadro negro e vermelho.

Bem Haja

Stress and the City, no YouTube

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