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Wednesday, October 11, 2006

A Winter in London - Part I

Saiu de casa, ainda era noite.

O ar era frio, terrivelmente ventoso e agreste.

Mas Kate, nem o frio sentia, de tão gelada a sua Alma que tristemente vagueava pela manhã ainda escura, de mais um dia de Inverno.


Num passo apressado em direcção ao Metro, pensava na Vida...
Por vezes, a Vida anda às voltas, como as folhas de Outono em dia de Ventania.


Há momentos que não se conseguem explicar...

E à medida que ia descendo degrau-a-degrau a escadaria longa do túnel do Metro, Kate

esforçava-se por elevar a moral, tentando convencer-se de que tudo teria uma razão de ser.


Pela primeira vez na Vida, não sentia o Stress de chegar a horas a lado algum...

Olhava para o formigueiro de pessoas que àquela hora já circulava pelas ruas com ar de Almas penadas. Ela era mais uma, apenas, com uma diferença: aqueles rostos apagados de Vida, tinham para onde ir. Seguiam uma rotina qualquer, iam ao encontro de uma qualquer função que lhes permitia sobreviver na Grande Cidade.

A ela, restava-lhe observar a rotina alheia e sobreviver ao vazio da sua rotina.

Fechou e abriu os olhos rapidamente, para tentar perceber se estaria ainda a dormir... Mas não!

O estrondo causado pelo abrir das portas da carruagem, trouxe-a de novo à sua realidade.

Entrou, empurrada e apertada contra outros corpos inertes que se quedavam para onde calhasse, e deixou-se ir... embalada pelo correr da carruagem nos longos e velhos carris da Bakerloo Line.


Recorda-se de quando apanhava aquela linha para ir para a City. Sempre apressada, gostava daquele momento da manhã. Ao contrário da maioria dos seus “companheiros” de viagem, era raro acordar mal-disposta e o facto de adorar o seu trabalho fazia com que se sentisse bem consigo mesma.

Os colegas admiravam a sua energia e o ar bem-disposto e brincalhão, logo pela manhã, sem descuidar a postura profissional e atenta. E adoravam os pequenos mimos com que Kate muitas vezes os saudava. Um bolo fresquinho e chá com leite, para os técnicos do estúdio, fruta e flores para a sala que partilhava com outros colegas da redacção, enfim... pequenos gestos a que já se tinham habituado e tão característicos da simpatia que irradiava e que herdara da sua Mãe, uma médica Americana que, em trabalho, acabou por conhecer e se apaixonar por um jornalista Escocês. Uma mistura algo explosiva para qualquer Inglês, mas que Kate com muito savoir faire conseguia contornar.


Entre um livro ou uma revista, gostava por vezes de simplesmente observar pelo canto do olho as “personagens” ao seu redor, durante a viagem pela rede de Metro londrina.

Mas agora... nada capta a sua atenção. Sente a Alma baça, vazia, e distante.

Mal podia acreditar. Com o olhar rígido e fixo no nada, sentia o calor das lágrimas que começavam a escorrer pela sua face meia sardenta.

Dez anos da sua Vida... Dez anos... Dez anos reduzidos a uma assinatura “cordial”, somada a uma carta de estima e recomendação pelo seu trabalho e competência exemplares, para lhes subtrair o peso na consciência. Meras contas de somar e sub(trair) expectativas, sonhos, e uma aposta de Vida.


Absorvida pelos seus pensamentos e por uma certa amargura, Kate saiu na última estação.

Subiu pelas escadas rolantes até à superfície...

Lá fora, a mesma agitação do trânsito, das pessoas, e o ar agreste e frio que parecia puxar-lhe todas as lágrimas ainda contidas nos seus grandes olhos verdes.

Pela primeira vez na Vida, não sabia onde estava... e muito menos para onde a levava a Ventania de Inverno.

O choro de uma criança levou o seu olhar até à montra da BlackWells, onde a capa de um livro sobressaiu de imediato - SPRING, de Emily-Jane and Hills Orford.

Um amigo já lhe tinha falado naquele livro. Era sobre as Quatro Estações, de Vivaldi. E cada uma das Estações do Ano retratava uma história.
Kate entrou na livraria, e procurou o livro. Ao ler o prefácio deste, percebeu que a história se centrava numa talentosa Violinista e num segredo que existia dentro do seu Vilolino que apenas ela e a sua Mãe conheciam.

Mas, não sabendo bem como, o segredo foi descoberto. E o livro conta o seu percurso de vida, a forma como sobreviveu e cresceu com o que de bom e mau a vida lhe trouxe, onde cada estágio da vida é representado por uma Estação do Ano.

Transportando a sua vida para esta história, Kate sentiu que talvez estivesse a atravessar o seu próprio Inverno. Tinha de acreditar que a seguir, haveria sempre uma Primavera...Comprou o livro, e saiu.


Na rua, as últimas folhas das árvores caiam com o Vento gelado que se mantinha. Kate apanhou uma folha linda, em tons de castanho-acobreado e guardou-a junto das primeiras páginas do seu livro...

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