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Thursday, October 27, 2011

Ventania de Outono

O dilema da página em branco... Não interessa. Obriguei-me a escrever todos os dias. Por pouco que seja, por pouco sentido que faça... escrevo! E aqui estou eu, com o dilema da "página" em branco. Isto não é uma página de um caderno ou de um bloco. Mas não deixa de ser uma página onde pretendo escrever algo maior. Algo que me transcenda, que fique para além de mim mesma e que possa servir de inspiração a alguém... ou não. Não importa. Uma vez li um livro de uma escritora com algum sucesso que dizia que, independentemente de ser bom ou mau, o escritor deve escrever quatro páginas por dia. Não estou a auto-intitular-me de escritora. Estou muito longe disso. Mas gosto de escrever. Não sei se é uma terapia dos que gostam de alguma solidão, ou uma necessidade de exprimir algo que não se consegue verbalizar. Muitas vezes, nem é possível verbalizar. A escrita é como uma espécie de grua que penetra no nosso ser mais profundo e iça todos os fantasmas, recalcamentos, todas as dores e as alegrias que vamos transportando pela vida. Por isso me obriguei a escrever todos os dias. A desculpa da falta de inspiração leva-nos a adiar páginas e páginas de coisas que muitas vezes na cadeira do café, na areia fina da praia ou na fila do supermercado nos tomam de assalto, como se algo dentro de nós quisesse dizer-nos alguma coisa que está esquecida e longe. Ou que ainda não se consegue perceber, mas que cria uma sensação estranha de querer agarrar uma folha em branco e começar a escrever algumas palavras que nos surgem naquele preciso momento e que temos a certeza que vão desencadear um jorrar de letras que certamente poderão traduzir o nosso dilema.
Bom, mas hoje, no meu segundo dia de "pena e papel", nem o dilema da página em branco levou a melhor.

A ventania lá fora captava a minha atenção. Estava outro dia de Inverno rigoroso puro. Saí ainda de madrugada para atravessar o trânsito da cidade sem grandes problemas. Este, é sem dúvida um dos preços altos a pagar por não viver dentro da cidade e ter de se deslocar a locais que nenhum dos transportes públicos visita. Lá fui. Noite escura, um vento agreste que balouçava o carro em andamento e me fazia reduzir a velocidade a que normalmente me desloco. De repente, uma chuva violentamente pesada começou a cair. Pingos tão grossos que pareciam que iam partir os vidros do carro a qualquer momento. Abrandei ainda mais, era tudo tão intenso que, para além de estar escuro como breu, não se conseguia ver nada com a intensidade de pingos grossos que se abatiam sobre a terra. A chuva formava uma cortina esbranquiçada, meia transparente que o carro ia atravessando, como se fosse entrar noutra dimensão. E talvez fosse... Eu pelo menos senti-me a viajar, literalmente, para outras dimensões do pensamento. A chuva tem em mim um efeito tipo Cocoon. Faz-me penetrar nos meus pensamentos mais profundos. Leva-me a uma dimensão do sub-consciente. Talvez porque simplesmente gosto de olhar a chuva. De ver os pingos grossos caírem no chão, lá fora, gosto dos salpicos nas janelas e com vento então, mais embalada fico. É como se entrasse num transe que me deixa em plena sintonia com o tempo que faz lá fora e me liberta a mente para os pensamentos que estão mais escondidos. Soltam-se com a ventania de um dia de Outono e caiem a pique na minha esfera de atenção como os pingos mais grossos da chuva que se faz ouvir lá fora.

Wednesday, October 26, 2011

Um dia...

Saí para tomar um café. Como desculpa tinha uma boleia prometida até à cidade mais próxima desta zona onde me reinstalei há pouco tempo. Fica perto de praias, mas a casa situa-se entre bosques no topo de uma arrábida onde outrora - há muitos milhares de anos - a força das águas do Oceano Atlântico descarregava a sua fúria com ondas fortes, turbulentas, daquelas que agitam muito as águas.

Saí de manhã cedo. Levei a senhora que ia para a cidade e pelo caminho olhava o céu cinzento escuro que parecia escurecer a cada minuto que eu via passar no relógio digital do carro.
Caíram algumas gotas, o que por sinal foi benéfico para o pára-brisas do meu carro. Estava sujíssimo. Ando há meses para o levar para uma lavagem a sério. Daquelas que para além da lavagem exterior, deixam tudo limpo e bem-cheiroso por dentro.
Já na cidade, acabei por deixar a senhora que mora perto de mim no dentista e fiquei à espera num café igual a tantos outros. Na entrada, a montra com os bolos sedutores a atormentarem os que lutam contra as calorias mas que não sobrevivem sem um café. Pedi um. Cheio, como sempre.
Sentei-me e fiquei a contemplar o tempo lá fora, o que passa, quem passa e o clima também.

As árvores dançavam uma dança louca, perturbadas pelo vento forte que tresloucado uivava e levantava todos os plásticos e papeis que encontrasse por perto. No mesmo ritmo frenético e surumbático, passam pessoas de um lado para o outro, na vida delas, certamente, a caminho de afazeres. E eu? Questionei, na esperança de ouvir uma resposta no uivo do vento ou talvez numa folha de papel atirada pelo vento na minha direcção, para me dar uma pista. Não entendo nada. Não entendo este passar de tempo, não entendo porque razão apesar do tempo passar eu sinto que está tudo na mesma. Cada dia é um dia, mas um dia igual ao outro, igual ao de ontem que já passou, um dia que sei como vai ser, decido como vai ser mas não decido nada, porque não há porque decidir.

Nesta altura já eu parecia falar com algo superior às minhas forças que começavam a sucumbir por entre lágrimas que enchiam ainda mais a chávena do meu café.
Já saiu do dentista. Está na hora do regresso. Não me custa nada fazer isto. Afinal, o dia estava tão feio que seria péssimo para ela ter de se deslocar sozinha e em transportes demorados até chegar ao dentista.

O silêncio voltou a instalar-se no regresso, salvo pelo rádio que soltava umas gargalhadas animadas dos locutores do programa da manhã. São todos assim. Animados! Riem, gritam, fazem tudo para nos tirar do marasmo dos dias que passam. Deve ser bom, fazer algo de bom pela vida dos outros milhares que estão do outro lado do fio. E ainda ganhar a vida com isso. Ganhar a vida... ora qui está uma boa expressão. Não ganhamos a vida quando nascemos? Bem, sim, claro. Dão-nos a vida, mas temos de lutar por ela. A vida não é um dado adquirido nem uma garantia de sobrevivência ou de longevidade. Lutar pela vida é de certa forma ganhar a vida ou ainda fazer pela vida.
Os meus pensamentos voavam de ramo em ramo, sem saber muito bem onde pousar. Foi aí que decidi que iria voltar a fazer Yoga em casa e também passaria a escrever todos os dias. Mesmo que não gostasse do resultado final. Talvez assim consiga levar os meus pensamentos mais longe. Consiga levá-los a acções, a coisas práticas, em vez de me torturar com demasiada borboletas saltitantes que vão pousando sem nexo, sem objectivo, apenas o de,.,.. voar, voar, voar, durante a sua breve vida. Mas a minha é longa, e não me posso dar ao luxo de não saber o que fazer com ela. Pensando bem, isto nem sequer é um luxo. É mais um martírio. Uma tortura latente.

Chegámos novamente ao campo. Sem dúvida que o tempo estava bem pior. Mais carregado e com o vento a soprar mais forte, o temporal avistava-se. Conseguia ouvir as ondas fortes e pesadas que se abatiam nos areais das praias das proximidades. Hoje era o dia perfeito. Hoje era o dia. Sentei-me e escrevi.

Wednesday, October 05, 2011

Café, Café e mais Café

O senhor Cintra já duvidava que eu esperasse alguém. O meu encontro marcado para as quatro da tarde já tinha expirado a validade. Estava mais frio junto à mesa onde me encontrava do que lá fora e acabei por pedir um café pingado em chávena escaldada, depois da primeira meia hora de espera.
Na pastelaria do senhor Cintra, igual a do senhor João, igual a do senhor António, igual a qualquer outra em lisboa, o LCD de 27 polegadas ao fundo do balcão sintonizava um talk show para preencher as tardes de quem não vai para além do quarto canal.
Optei por sintonizar a janela mesmo ao meu lado na expectativa que o meu contacto chegasse a qualquer momento. Lá fora, as pessoas passavam apressadas, a falar ao telemóvel, ou em passo apressado a olhar para o infinito, como se circulassem com pressa mas sem destino.

Perto das cinco da tarde, enquanto escrevia uma notas no meu Moleskine clássico, senti alguém a aproximar-se da minha mesa. “É a Alexandra?” perguntava o rapaz com a face rubra, fôlego desequilibrado e com os braços esticados parecendo não saber onde colocar as mãos sem ser nos bolsos. Disse que sim e em jeito de pergunta-resposta disparei: “Kbyte, certo?”
Enquanto pedia desculpa pelo pequeno atraso, Kbyte – nickname do mundo dos bites e bytes que se estende ao seu mundo de carne e de osso - rapidamente se sentou e pediu um galão, meia torrada e um café no final. “Desculpe lá, acordei há pouco, é o meu pequeno-almoço”.

Como quem faz um download ilegal, Kbyte falou comigo sem pressas e com o entusiasmo de quem tem a oportunidade de dar voz às intenções alegadamente lícitas que reúnem de forma anónima e anárquica, hackers sem fronteiras, livres de circular e de fazer circular o que consideram "património público". Viajei pelo monitor facial de Kbyte que ao longo da nossa conversa se debatia com olhar cintilante pela verdadeira justiça que estes Robin dos Bosques virtuais defendiam. No fundo, eles são os que lutam contra o Poder instituído.

Com o anoitecer, o Cintra interrompeu a conversa para pedir o pagamento. Queria fechar a caixa. Há um bom par de horas que nos olhava de lado e silenciosamente dizia - em tom de desagrado - que eram horas de sair, enquanto varria as últimas migalhas e guardanapos amachucados no chão, e arrumava as cadeiras de pernas para o ar em cima das cerca de cinco mesas solitárias que restavam ao longo do corredor, fazendo o maior barulho que podia para nos desligar da corrente. 

Paguei e saí com o Kbyte que estava atrasado para um encontro com colegas da Faculdade. "o que vale é que estou perto", dizia ele com ar tranquilo e energético. O Técnico era um pouco mais acima. Pediu-me pela terceira vez para usar apenas o seu nickname na minha peça. Como ele tinha muitos, não estava muito preocupado. Tranquilizei-o e enquanto me despedia já o meu telemóvel tocava. Um número que não reconheci. Encaminhei-me para a boca do metro mais próxima e atendi a chamada.

Do lado de lá, uma voz masculina, apressada e sem rodeios, apresentou-se em tom de brincadeira. Era o Henry, um amigo de longa data que conheci na faculdade. Foi meu professor na cadeira de Inovação e Criatividade. As aulas dele eram fantásticas. Na altura, com os seus quarenta e alguns anos, demonstrava ter uma cultura vastíssima, não só pelo conhecimento adquirido em milhares de livros que lera ao longo da sua vida, mas acima de tudo pela riqueza das experiências de ter vivido fora de Portugal durante muitos e longos anos. Para além de muitos anos em Berlim, Henry vivera uns saudosos doze anos no Rio de Janeiro, cidade onde ainda hoje preserva alguns amigos. 

Costumo ver Henry frequentemente. Encontramo-nos para tomar café com muita frequência, com o simples pretexto de matar saudades e conversar sobre os dias que correm. Geralmente sou eu quem mais fala. O Henry tem uma capacidade rara de ouvir as pessoas. Ouve com os olhos, como se mergulhasse na minha alma e soubesse perfeitamente tudo o que por lá navega. São muitos anos de amizade, uma amizade interrompida por alguns periodos de tempo, mas sempre que nos reencontramos, parece que não passou tempo nenhum desde o íultimo café. Henry telefonou-me porque queria confirmar o nosso encontro da manhã seguinte e ao mesmo tempo dizer-me que tinha mudado de número de telemóvel. Claro! Por isso não reconheci o número quando me ligou. Estava explicado.
(Continua)


Stress and the City, no YouTube

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