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Wednesday, October 26, 2011

Um dia...

Saí para tomar um café. Como desculpa tinha uma boleia prometida até à cidade mais próxima desta zona onde me reinstalei há pouco tempo. Fica perto de praias, mas a casa situa-se entre bosques no topo de uma arrábida onde outrora - há muitos milhares de anos - a força das águas do Oceano Atlântico descarregava a sua fúria com ondas fortes, turbulentas, daquelas que agitam muito as águas.

Saí de manhã cedo. Levei a senhora que ia para a cidade e pelo caminho olhava o céu cinzento escuro que parecia escurecer a cada minuto que eu via passar no relógio digital do carro.
Caíram algumas gotas, o que por sinal foi benéfico para o pára-brisas do meu carro. Estava sujíssimo. Ando há meses para o levar para uma lavagem a sério. Daquelas que para além da lavagem exterior, deixam tudo limpo e bem-cheiroso por dentro.
Já na cidade, acabei por deixar a senhora que mora perto de mim no dentista e fiquei à espera num café igual a tantos outros. Na entrada, a montra com os bolos sedutores a atormentarem os que lutam contra as calorias mas que não sobrevivem sem um café. Pedi um. Cheio, como sempre.
Sentei-me e fiquei a contemplar o tempo lá fora, o que passa, quem passa e o clima também.

As árvores dançavam uma dança louca, perturbadas pelo vento forte que tresloucado uivava e levantava todos os plásticos e papeis que encontrasse por perto. No mesmo ritmo frenético e surumbático, passam pessoas de um lado para o outro, na vida delas, certamente, a caminho de afazeres. E eu? Questionei, na esperança de ouvir uma resposta no uivo do vento ou talvez numa folha de papel atirada pelo vento na minha direcção, para me dar uma pista. Não entendo nada. Não entendo este passar de tempo, não entendo porque razão apesar do tempo passar eu sinto que está tudo na mesma. Cada dia é um dia, mas um dia igual ao outro, igual ao de ontem que já passou, um dia que sei como vai ser, decido como vai ser mas não decido nada, porque não há porque decidir.

Nesta altura já eu parecia falar com algo superior às minhas forças que começavam a sucumbir por entre lágrimas que enchiam ainda mais a chávena do meu café.
Já saiu do dentista. Está na hora do regresso. Não me custa nada fazer isto. Afinal, o dia estava tão feio que seria péssimo para ela ter de se deslocar sozinha e em transportes demorados até chegar ao dentista.

O silêncio voltou a instalar-se no regresso, salvo pelo rádio que soltava umas gargalhadas animadas dos locutores do programa da manhã. São todos assim. Animados! Riem, gritam, fazem tudo para nos tirar do marasmo dos dias que passam. Deve ser bom, fazer algo de bom pela vida dos outros milhares que estão do outro lado do fio. E ainda ganhar a vida com isso. Ganhar a vida... ora qui está uma boa expressão. Não ganhamos a vida quando nascemos? Bem, sim, claro. Dão-nos a vida, mas temos de lutar por ela. A vida não é um dado adquirido nem uma garantia de sobrevivência ou de longevidade. Lutar pela vida é de certa forma ganhar a vida ou ainda fazer pela vida.
Os meus pensamentos voavam de ramo em ramo, sem saber muito bem onde pousar. Foi aí que decidi que iria voltar a fazer Yoga em casa e também passaria a escrever todos os dias. Mesmo que não gostasse do resultado final. Talvez assim consiga levar os meus pensamentos mais longe. Consiga levá-los a acções, a coisas práticas, em vez de me torturar com demasiada borboletas saltitantes que vão pousando sem nexo, sem objectivo, apenas o de,.,.. voar, voar, voar, durante a sua breve vida. Mas a minha é longa, e não me posso dar ao luxo de não saber o que fazer com ela. Pensando bem, isto nem sequer é um luxo. É mais um martírio. Uma tortura latente.

Chegámos novamente ao campo. Sem dúvida que o tempo estava bem pior. Mais carregado e com o vento a soprar mais forte, o temporal avistava-se. Conseguia ouvir as ondas fortes e pesadas que se abatiam nos areais das praias das proximidades. Hoje era o dia perfeito. Hoje era o dia. Sentei-me e escrevi.

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