Change to English or other language

Sunday, May 08, 2011

Vivemos o Prazer ou o Vício… da Partilha? | Notícias do Parque

slowYas1
SLOW WAY – Stresse e a Cidade, por: Alexandra Sampaio Pássaro
ecobird.jornalista@gmail.com

É absolutamente óbvio que os novos meios de comunicação e o universo da Internet mudaram tremendamente a nossa forma de estar e a forma como vivemos intensivamente cada segundo dos nossos dias. Mas para além de uma série de vantagens e benefícios, será que nos trouxe efectivamente mais qualidade de vida?

Há bem pouco tempo combinei encontrar-me com uma das minhas melhores amigas, ao final do dia, no coração da cidade alfacinha: o Chiado. Há vários sítios onde gosto de estar nesta zona de Lisboa. Variam de acordo com as estações do ano, mas acima de tudo, em função da minha disposição. Naquele dia de final de Março, com muita chuva e frio, pensei na Bénard. A Mónica também adora este espaço emblemático, por isso o consenso foi fácil.
Cheguei mais cedo do que o previsto. Entrei e ocupei a última mesa vaga, para duas pessoas. A Bénard estava cheia!

Depois de me acomodar, comecei a olhar em volta. Observei que ao balcão, cerca de 70% das pessoas se dividia entre um café ou um sumo, um croissant e uma conversa ao telemóvel. Outros, já entravam com o telemóvel junto ao ouvido ou com phones, parecendo que falavam sózinhos. Faziam um gesto para pedir uma bica e apontavam para o que queriam comer na montra dos folhados ou dos bolos. Os restantes – alguns acompanhados – conversavam entre si enquanto enviavam ou recebiam SMS’s, ao passo que os solitários mostravam um semblante sério, centrados no que comiam ou talvez num lugar ou numa questão muito distante dali. Mas sempre de olho no engenho móvel, não fosse chegar uma mensagem que pudessem perder de vista, entre uma trinca no croissant e um gole de meia de leite. O mesmo acontecia com alguns dos que ocupavam as mesas. Entre conversas, SMS’s e telefonemas, o “multitasKing” era mesmo Rei!

Foi então que comecei a pensar… de facto, eu que sou da geração que nasceu nos anos 70, tenho passado por momentos incríveis, do ponto de visto de alteração de hábitos de vida (entre muitos outros, claro, ao nível da Ciência e Saúde, da Educação, Tecnologia, entre muitas outras áreas). Tenho a sorte de, ao longo dos meus 38 anos ter tido a oportunidade maravilhosa de presenciar uma evolução veloz – e muita vezes atroz – na forma como vivemos em comunidade – ou não – e também na forma como “consumimos” o nosso tempo. Tornámo-nos, de forma inequívoca, numa sociedade de consumo, quase que de forma vampiresca. Sugamos o tempo como se não existisse o amanhã. Mas será que realmente o “vivemos” ou simplesmente nos limitamos a “consumi-lo”, como fazemos com a Tecnologia que nos rodeia em casa, no escritório, e sem a qual já não podemos passar?
Senão, vejamos… Em vez de cartas escritas à mão (ou mesmo em computador), passámos a enviar emails. São enviados e recebidos num piscar de olhos. E quase no mesmo instante em que o acabámos de escrever atinge a caixa de correio electrónico do destinatário. É maravilhoso, certo? Claro que sim! Torna tudo mais rápido: o trabalho; a partilha das fotos das últimas férias, com os amigos e familiares; o envio de documentos, postais de aniversário e datas especiais; entre muitas outras opções. O reverso da medalha é que passámos a receber cada vez mais emails que solicitam a nossa atenção permanente e que nos obrigam a respostas imediatas, pois supostamente… esse é o seu objectivo: agilizar e elevar a produtividade global, com custos insignificantes para as máquinas mas… com uma maior sobrecarga no trabalho que nos espera, muito para além do processamento do email. Somos constantemente interrompidos, dispersamo-nos, e perde-se o tempo de qualidade para produzir o que é efectivamente relevante, mergulhando-nos na urgência dos prazos cada vez mais apertados.
Em vez de ver televisão aguardando que a programação siga o seu curso natural, passámos também a consultar frequentemente o Youtube (e outros sites do género), para ver “o instante” que perdemos em directo na TV. Também gravamos programas para ver mais tarde, enquanto usamos o nosso “tempo precioso” para fazer outras coisas durante essas horas. Tornámo-nos directores da nossa própria grelha televisiva e celebramos a libertação do sofá, ao poder ver os conteúdos que desejamos, no telemóvel, no portátil ou nos tablets, iPads e afins, em qualquer lugar. Estamos em movimento – na praia, no escritório, na montanha – mas sempre ligados ao mundo, ao que nos interessa ver e ouvir e com quem mais queremos “estar”. Mais revolucionário ainda: passámos a ter a possibilidade de partilhar com o mundo os nossos próprios conteúdos! Tudo o que nos apetece dizer ou mostrar que fazemos. Finalmente, a facilidade de poder partilhar a nossa vida de forma tão fácil e acessível… Vivemos a era da janela indiscreta com vista para a vida alheia. Dos amigos e dos desconhecidos que passaram a amigos porque são amigos de um amigo do amigo…
Tornámo-nos em activos consumidores de informação, independentemente do lugar onde possamos estar. Independentemente da fonte de informação. Isto é maravilhoso, não é? Claro que sim! Afinal, não é tão bom estar a escrever um relatório aborrecido ou um texto para o próximo livro numa esplanada belissíma, algures em frente ao mar, e ao mesmo tempo “estar” com os amigos? Óbvio. Fazemos tudo, sem perder um segundo e com todas as opções do pacote incluídas: trabalho, esplanada com mar e amigos! Ah, e claro… se a esplanada tiver acesso wireless ou se possuir uma pen de acesso à Internet móvel, ainda pode acompanhar a timeline no Twitter e no Facebook, ao mesmo tempo que partilha a fotografia do mar que tem à sua frente. Depois, resta ficar ansiosamente à espera de comentários, pulando freneticamente entre o trabalho, as redes, os amigos, os SMS’s e os telefonemas. E quando olha para as horas, repara que voaram e que ainda não concluiu o que queria fazer naquele suposto momento de trabalho, conciliado com a “tranquilidade e comunhão” com a natureza.
Passámos de olhares passivos a vozes activas que desejam “likes” e comentários como se desejam elogios, uma promoção profissional, e relevância social. É o que se faz ao partilhar a fotografia do sushi que se come no restaurante A ou B, a música que está a passar no lugar mais “in” da Noite e onde todos querem estar, ou ainda a indignação, por se ter sentido “maltratado” numa loja, de preferência, de marca conhecida para atrair maior atenção.
Basicamente, passámos a partilhar praticamente tudo, com todos. Desde a informação mais relevante ao facto mais nonsense e insignificante para qualquer um que está do outro lado.

De facto, há muitos anos atrás, quando ia ao Chiado com minha mãe e lanchávamos numa daquelas pastelarias da zona, a imagem que guardo é muito diferente. Por um lado, como já o disse, sinto-me uma privilegiada por presenciar uma evolução tão rápida na forma como a Humanidade vive. É uma época muito especial, a possibilidade de quase sem custos comunicarmos com alguém que está do outro lado do mundo, a rapidez com que nos deslocamos para os vários locais onde programamos estar, a facilidade com que se enviam documentos e se movimentam as contas bancárias, e muitas, muitas outras coisas excepcionais que conseguimos fazer tão facilmente, a um custo reduzido e de forma extremamente rápida! Por outro lado, comparo a qualidade de vida – e não me refiro a status ou situação financeira de cada um – a forma genuína com que disfrutávamos do espaço e dos que nos acompanhavam. Estávamos com quem realmente se encontrava fisicamente connosco, naquele mesmo lugar. Prestávamos mais atenção ao que nos rodeava e as conversas eram intensas e sem dispersões. Estávamos de bem com o relógio, que não parecia correr como nos dias que… correm.
É precisamente esta a equação que tento resolver, no sentido de encaixar o melhor destes dois mundos tão diferentes, mas ao mesmo tempo, não tão distantes assim.

O meu pensamento voltou à mesa onde estava quando um dos empregados sempre impecavelmente vestidos de branco me perguntava o que ia desejar. Por segundos, pensei na minha equação, mas achei melhor não pedir algo que teria de ser eu mesma a encontrar através da minha experiência pessoal. Optei por um café pingado e um pastel de nata com canela. Logo depois, o meu telemóvel alertou-me para um SMS que acabava de chegar. Era a Mónica a avisar-me que estava atrasada dez minutos. Respondi, dizendo-lhe para não se preocupar.
Voltei à minha questão inicial… Será que temos mais qualidade de vida com a variedade de formas de comunicação existentes? Estaremos mais sós ou mais acompanhados? Serão as relações mais constantes e em maior número ou mais distantes e marcadas por uma projecção da imagem que se deseja passar, que não dá a conhecer quem somos genuinamente? Partilhamos quem somos ou como queremos que nos vejam?

Numa altura em que a minha relação com as redes sociais e este tipo de partilha se tornou enfadonha e bem mais distante do que há uns anos atrás… confesso que não resisti a actualizar o meu perfil no Facebook e no Twitter com uma foto do espaço maravilhoso onde me encontrava a lanchar. E logo a seguir, o pastel de nata polvilhado de canela, claro!
Rapidamente, a tomada de consciência dos meus actos levaram-me a reflectir no seguinte: porque razão partilhamos com o “mundo” o facto de estarmos a lanchar em tal sítio, o que comemos, bebemos, o que vemos à nossa volta, e até o que sentimos em dados momentos?! E porque razão dou comigo curiosa acerca do que os outros estão a fazer com a sua vida?! Por vezes, pessoas que nem conheço, ou que conheço mal e não fazem parte do meu universo de relações mais próximo e familiar. É simplesmente uma forma de “matar o tempo” ou pura insanidade mental? Intriga-me se não será uma necessidade de “voyerismo” nas nossas vidas ou o não querer reconhecer que, mesmo quando estamos atarefados no trabalho, ou em puro lazer e com companhia, afinal talvez nos sentimos sós. Ou será mesmo o vírus de uma geração social/relacional, que atira o nosso ego para o palco principal onde queremos ser protagnistas a tempo inteiro, esperando pelos aplausos de um público praticamente desconhecido, na ânsia de satisfazer um eventual vazio ou uma falta de sentido no prazer de simplesmente estar e Ser?

Terminei o meu café a pensar nisto, sem no entanto resistir a verificar se existiam comentários ao meu pastel de nata com canela…
A Mónica acabava de chegar, mesmo a tempo de eu ver que tinha 9 comentários e 20 likes… E so what?!, pensei eu…

Abraçámo-nos efusivamente e ficámos à conversa durante horas. Definitivamente, eu não me sentia só. Aquele momento de partilha mútua era meu e da Mónica e nada era mais importante do que isso.
O telemóvel ficou na mala, guardado para outros momentos. Momentos em possa sentir-me… só, ou… preenchidos com a estranha necessidade de gritar ao mundo que estou a lanchar na Bénard e que vou saborear um belo pastel de nata com canela… mantendo apenas para mim aquele momento magnífico e verdadeiramente partilhado com a minha amiga. Sem interrupções.

O Mundo pode esperar para ver apenas o que eu quero partilhar. Os momentos de qualidade da minha vida são vividos e partilhados apenas com aqueles que os vivem comigo, num dado instante. E estes sim… em tempo real. Não virtual :)
Talvez seja esta uma das possíveis respostas à minha questão inicial…
A qualidade do nosso tempo é da nossa inteira responsabilidade. Não devemos culpabilizar a Tecnologia. A escolha entre nos tornármos dependentes desta, é exclusivamente nossa.

Stress and the City, no YouTube

Loading...

Countries & Cities Where I've Been.