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Monday, March 26, 2007

A última vez que chorei

Para trás ficara o Prado e dirigia-me para lado nenhum em especial.
Deambulava ao sabor do vento por entre artérias movimentadas, circundadas por ruinosos edifícios.
Mais à frente, o que parecia ser uma pequena praça, enchia-se agora de gente.
Anunciando que algo se iria passar em breve, os dois altifalantes suspensos nos tripés de rua, emitiam uma música que mais pessoas chamavam ainda.
Pessoas que antes passavam, paravam agora para ver o que o momento lhes reservava.
A música ao contrário do que seria de pensar não era nacional. Era algo moderno para aquelas paragens. Uma espécie de música exótica, árabe, como as que encantam as serpentes, mas apoiada por um chillout recente.

No pequeno larguinho da esquina da San Rafael com a Galiano preparava-se uma passagem de modelos de rua.
Já havia som, não havia palco, mas haviam umas fitas que separavam o público que se amontoava, da passerelle feita de chão.
Entre as duas colunas de som, os organizadores lutavam contra as adversidades do momento para prenderem a tela com o nome dos armazéns de roupa que patrocinavam o tamanho evento.
Numa barraquinha de lona improvisada, as modelos deviam estar a trocar de roupa, a analisar pelos cabides que iam entrando.
Na ausência de uma verdadeira plateia, o público ia se organizando em roda, procurando o melhor lugar. As crianças eram as que mais ansiosas estavam.
Os homens eram quase todos escuros. Quase sempre em tronco nu, ou então com mangas à cava. Usavam quase todos chinelos e as suas peles não conheciam cremes, perfumes ou óleos. Despenteados, com e sem dentes pareciam indígenas contemplando o civilizador.
As mulheres, apesar das suas peles também não conhecerem os nossos cosméticos, substituíam-nos por outros, sabe se lá onde os arranjavam e por isso eram lindas e exóticas. Tinham roupa. Mas pouca.
Eu por ali fiquei. Afastado o suficiente das gentes, mas capaz de ver tudo. Afinal de contas aquela passagem de modelos não era para mim, turista. Não era a mim que queriam vender as roupas.
A distância adoptada permitia-me ver em plano geral, mas também cada rosto individualmente. E eram esses rostos individuais que carregavam a marca da miséria humana, mas que agora exprimiam felicidade com a aproximação do inédito e raro evento.
Enquanto aquela música dilatava o tempo e oferecia-me aquelas imagens em câmara lenta, uma senhora da organização saía da tenda-camarim e lançava sobre a multidão punhados de rebuçados.
Efervescentes, as crianças buliçosas, no meio de sorrisos e gritos, lutavam umas com as outras sem se magoarem, tentando apanhar o maior número de doces.
Foi nesse preciso momento, nesse instante mais denso – a que Aumont chamou de "instante pregnante" e que Cartier-Bresson no contexto fotográfico e na representação da imagem apelidou de “momento decisivo” - que decidi em não ver nenhuma passagem de modelos. Afastei-me ao mesmo tempo que contemplava, aquele que para mim, foi o mais puro e inocente retrato humano.
Não precisava de ficar mais. Aquele momento permitiu-me inferir o que aconteceu antes e o que iria acontecer depois.
O ter ficado já seria especular e alimentar emoções e por isso, fui me embora.
O resto do caminho foi feito entre lágrimas e pensamentos.
Continuei o meu percurso para lado nenhum, mas com a certeza que encontrara um novo rumo que me transmitia um pouco mais de sabedoria.
Sei agora porque chorei.
Chorei por estar só em Havana, sem ninguém para partilhar aquele momento.
Chorei por pensar no meu filho que estava longe e saber que nunca precisará de se gladiar por causa de pouca coisa.
Chorei ao ver a felicidade daquelas crianças perante tal condição humana.


Cuba 2005


Há momentos da nossa vida em que choramos mais. Choramos nos primeiros anos de vida quando queremos dizer algo e não sabemos. Ou porque temos fome, ou porque sentimos dor ou simplesmente porque qualquer coisa nos desagrada.
Mais tarde choramos por tristeza, por desgosto.
Choramos por frustração ou até por amor.

Se conseguíssemos quantificar e medir cada lágrima derramada chegaríamos à conclusão que a quantidade em mililitros é inversamente proporcional à nossa idade. Por outras palavras, quanto mais envelhecemos menos choramos. E assim poderíamos contabilizar e concluir, por exemplo, que chorámos até hoje 37 litros de lágrimas. Se a contabilidade fosse bem organizada poderíamos, ainda, concluir que desse total se calhar apenas 12 litros se justificavam e o restante era escusado. Enfim…

Talvez o importante não seja contabilizar mas aceitar. Aceitar que choramos porque somos humanos e pronto.
Quando se passa dos 30 e quando chorar é cada vez mais raro eis que surge a inevitável reflexão acompanhada da pergunta “Quando foi a última vez que chorei?”.

E tu? Quando foi a última vez que choraste?

Stress and the City, no YouTube

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